Esses dias eu postei lá no BR-Linux o link e alguns trechos de um manifesto do qual eu discordo em sua maior parte, contendo algumas generalizações que me ofenderiam pessoalmente se nesses casos eu não preferisse a abordagem do Casablanca, daquele diálogo entre o vendedor de vistos de saída e Rick Blaine. Mas não é por discordar que eu deixo de dar espaço pro autor, e pra quem quiser discutir.
A coisa meio que tomou um corpo, foi debatida aqui e ali, e acabou gerando um outro pequeno texto meu, falando (bem por alto) sobre a relação entre modelos de negócio, planos de negócio, e a perspectiva de quem pensa em viver de software livre, meio sob uma ótica clintoniana - mas bem superficialmente - demanda, incentivos, essas coisas.
E agora vou pedir licença pra falar um pouco mais sobre isso, sem compromisso de ser completo, conclusivo ou objetivo. Mas podia ser pior: eu poderia estar falando sobre o paredão do BBB…
O que eu não disse no meu segundo texto, ao falar sobre alguns modelos que têm funcionado, é que tem alguns que dificilmente funcionam. É preciso ser muito bom (mais ou menos no nível dos magos e ilusionistas, mas há exceções) para conseguir sucesso continuado em um empreendimento (ético e legal) sem ter uma boa proposta de valor, uma fonte bem definida de receita, um plano de crescimento e, se possível, alguma vantagem competitiva. Mesmo assim, todos os dias tem alguém que tenta, seja com software livre ou não. Muitos falham, e não são apenas os empreendedores individuais - como aquela série que o LWN vem publicando com a retrospectiva dos últimos 10 anos vem ilustrando muito bem.
Já no que diz respeito ao sucesso sob uma perspectiva comunitária, o cidadão precisa ter um produto ou serviço que atraia o público interessado em acompanhar e contribuir, precisa dar a oportunidade para que esta contribuição ocorra, e precisa também que exista algum estímulo (provido por ele mesmo ou por algum fator externo) para que estes eventuais interessados escolham contribuir para este projeto especificamente, e não para vários outros com tantos ou mais méritos quanto.
E mesmo quando o cara reúne tudo isso, ele ainda tem que ter sorte e vento a favor - seja no Brasil ou no exterior. Até porque me parece que a absoluta maioria das pessoas que se consideram parte da comunidade (aqui ou no exterior) não oferece contribuições para nenhum projeto livre. Não que elas devessem: é normal e natural ser apenas usuário (e eventualmente atuar divulgando ou debatendo alguma coisa na ausência dos desenvolvedores ou diretamente envolvidos e interessados). As pessoas que dão um passo a mais são a valiosa e escassa exceção.
Generalizar dizendo que ninguém contribui é injusto. Conheço até bastante gente aqui no Brasil, ou do Brasil, que contribui de forma efetiva com o código aberto, e vários outros que já contribuíram e acabaram parando. Alguns ganham a vida com isso, outros incluem isso como parte do seu sustento, e outros não se importam. Poucos deles tomam como base um projeto individual e independente, modelo complicado de fazer decolar e de manter no ar. A maioria dos que eu me lembrei agora, em uma rápida contagem, não atua como empreendedor. Precisam também de um modelo, de diferencial, de receita, etc., mas aí é no mercado de trabalho em que atuam, algo bem mais simples e bem diferente das necessidades de um empreendedor (plano de negócios, etc.) mencionadas acima. Não que um plano de carreira estruturado desta forma atrapalhe quem tem condições de tocá-lo
Curiosamente, eu percebo nesses que ganham a vida com o código aberto várias características em comum, que ajudam seus respectivos modelos pessoais a funcionar. E aquela fé cega, de quem viu a luz e escolheu um profeta para determinar o seu destino tecnológico, não costuma ser uma dessas características - o que não impede muitos deles de manterem dentro de si acesa alguma chama ideológica, em maior ou menor grau, às vezes bem forte.
De uma forma ou de outra, eu gostaria de um dia escrever sobre esse pessoal que ganha a vida - empregado, freela ou empreendendo - com código aberto no Brasil. O chato é que são todos bem ocupados, e não lembro de nenhum que goste desse tipo de papo brabo sobre si mesmo. E tenho a impressão de que nenhum falaria nada de surpreendente, nada muito além de “eu identifiquei uma demanda que envolvia o software livre, me preparei para atendê-la, e depois encontrei alguém disposto a me pagar para isso” - variando a forma: contínua, assalariada, empreendedora, freelance, morando na beira da praia no Sul do Brasil, em um laboratório no nordeste, em uma multinacional, ou em outro lugar. Programando, dando curso, prestando suporte, escrevendo, falando com clientes malas, e muito mais. Tem também os que ganham a vida usando ou administrando software livre, mas é uma categoria à parte. E, obviamente, tem os que contribuem sem interesse de ganhar a vida com isso, por razões variadas - sempre bem-vindos.
Um dia ainda entrevisto alguns deles sobre isso
Por enquanto, minha conclusão é de que é mais do mesmo. E o que funciona pra uns, não funciona pra outros, e vice-versa. Conclusão ampla né? E vamos em frente.