Gatekeepers de apoio: não trabalhamos

Não há pré-requisitos para se alinhar a causas meritórias – embora possa haver para ser aceito por grupos que se identificam com elas.

Idade não é mérito nem atesta sabedoria, mas minhas décadas me trouxeram uma experiência sólida em receber (e lidar com) gatekeeping, que é aquela atitude de quem se acha porteiro de boate do seu hobby, da sua causa, do fandon da sua banda preferida etc. e quer fazer a triagem de quem pode ou não se alinhar às mesmas preferências.


um homem fala com uma mulher em cena de casa noturna, enquanto ela faz expressão de desgosto. A legenda diz: “Gosta de rock nada, me diz o nome de 8 discos do norvana então”
Sem tempo, irmão.

E essa experiência vem também porque eu meio que venci todas as loterias de entrar em campos que tem fãs intensos: código aberto/software livre, vôlei feminino, gostar ao mesmo tempo de punk rock, de heavy metal e de música eletrônica (e de avril lavigne), e mais.

Você pode imaginar quantas vezes eu ouvi invalidações das minhas preferências, ou aquela velha ladainha de "pra você apoiar esse _____ aqui que eu também apoio, primeiro precisa passar por esse meu critério de pureza".

Aliás: ouvi, ouço e certamente continuarei ouvindo, porque continuo apoiando essas mesmas causas e tendo as mesmas preferências.

Quando vai além do clubismo

Quando se trata de mero clubismo (e não inclui componentes de discriminação, em especial misoginia), esse tipo de coisa pode até ser folclórica, cultural, ainda que rasteira, contraproducente e merecendo ser superada logo.

Mas quando o gatekeeping quer restringir quem pode praticar atos de defesa a uma causa, e essa causa é meritória e positiva, ele se torna um obstáculo importante ao crescimento da causa, tristemente praticado por pessoas que acreditam estar defendendo algum ideal subjacente a essa causa.

Faz sentido preferir restringir quem age em apoio à mesma causa do que você? Em termos de escala de prioridades, não muito.

Atuando desde 1996 no mundo do código aberto, já recebi esse tipo de pressão muitas vezes, tanto da turma que se identifica com esse mesmo nome, quanto na que se alinha à Free Software Foundation (não é meu caso, há anos), e que muitas vezes quis me dizer que antes de eu defender alguma posição nesse âmbito, eu precisava completar os Doze Trabalhos de Hércules que eles haviam selecionado pra mim, ou ter me purificado em relação a algum pecado1.

Não é privilégio desses grupos, claro: assim como lá, em vários outros grupos (seja das artes, das causas sociais etc.) a gente percebe que no meio de uma maioria de gente legal, gentil e inclusiva, tem um percentual de pessoas barulhentas e abrasivas, que valorizam mais as diferenças do que as identidades, e exigem tributos e comprovações de fidelidade antes de expressar aceitação do apoio de quem não reza exatamente pela mesma cartilha ou venera os mesmos ídolos.

Uma solução eficaz pra mim, mas nem sempre feliz

Felizmente, a verdade é que não há pré-requisitos para se alinhar a causas meritórias, embora possa haver para ser aceito por indivíduos ou grupos que se identificam com elas.

Menos felizmente, ou talvez até infelizmente, eu acabei aprendendo a preferir defender os meus pontos de vista a partir de ações individuais, e não como parte de grupos – e uma das principais razões é que o gatekeeping alheio é uma força mais persistente do que a minha paciência para buscar inclusão e pertencimento.

Às vezes eu inspiro outras pessoas a aderirem ao mesmo esforço que eu, outras vezes não, mas por mim tudo bem: não estou fazendo pra ser aceito, e sim por acreditar em algo e em poder dar uma contribuição.


Poeminha do contra - Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho! (Mario Quintana, no livro
Grande Quintana sempre com a palavra certa.

Isso é uma coisa que me desmotivava, mas com a maturidade acabou se transformando em um impulso a mais, porque na real há um determinado percentual de pessoas que jamais irão nos aprovar, e eu realmente penso diferente delas, então podem me barrar do convívio delas quanto quiserem.

Certo estava Quintana: eles passarão, eu passarinho.

 
  1.  Pecado real ou imaginário – mas frequentemente real mesmo, porque eu já pequei bastante na vida.