Com a divulgação da foto de uma cratera com uma placa de gelo em Marte, já iniciaram os planos de exportar a Waternet para lá.
Não sei por que lembrei disso ontem (talvez pelo termo “placa de gelo”), mas a Waternet foi uma das brincadeiras via Internet mais divertidas em que me envolvi, pelo seu alcance. Durou pouco, até porque os próprios autores se encarregaram de desmentir tudo dias depois, mas foi surpreendente pela quantidade de pessoas que se interessou, e mandou consultas reais pelo formulário da página. Mais divertidas que estas consultas eram as consultas falsas, enviadas por gente que soube entrar na brincadeira. E mais divertidas que as duas juntas eram as manifestações de gente que perdia a linha e achava que alguém estava tentando enganá-los
A versão nacional foi de autoria do Jefferson Sefrim, amigo de longa data e previamente redator de humor na Transamérica. Foi mais uma destas colaborações que surgem via IRC: ele reuniu a maior parte do material (incluindo fotos como a do “watermodem” acima), eu participei com um pouco de redação técnica para deixar a idéia com aspecto um pouco mais realÃstico, e a Fernanda Posniak também ajudou a lapidar. Saiu no Terra e no UOL em poucos dias, e teve dezenas de milhares de acessos por dia enquanto ficou no ar.
O QuatroCantos (página especializada em boatos e lendas) escreveu a respeito: “(…) E mais: em lugar de firewall, o fabricante oferece o waterwall para impedir a invasão de hackers. As imagens dos modems e dos circuitos são bem feitas e revelam um grande cuidado na produção deles. O texto contém expressões como “manipulação genética das partÃculas de água”, “conectores ionizados”, “pulse generator waternet” e “particionamento das moléculas e desclorificação”. Essas expressões dão a hermeticidade esperada num texto que trata de tema tão especializado: a Internet através da água. Tudo não passa de mais uma brincadeira bem divertida e os comentários dos prováveis clientes também são divertidos.”
O mesmo grupo já havia participado (com várias outras pessoas, naquela vez) de um “projeto” anterior, o Trilux – revolucionário sistema operacional baseado na idéia de um bit com 3 estados possÃveis. Foram milhares de downloads do instalador a cada dia, enquanto esteve no ar. O download era gigantesco, a descompactação gerava um arquivo enorme, e o instalador (um programa para ambiente Windows) era um programa inócuo, que exibia uma barra de progresso que avançava lentamente durante algumas horas (9 horas em um pentium 100), exibindo mensagens “acreditáveis”, e parava ao chegar em 98%, avisando que não foi possÃvel encontrar a biblioteca Trisock.DLL. Antes de iniciar, ele exibia um alerta dizendo que conseqúências terrÃveis aguardavam quem tentasse interromper o processo de instalação. Tudo mentira, claro – mas devemos ter feito muita gente dormir com o PC ligado, aguardando pela falsa promessa de um sistema que permitia ler (e até alterar!) as conversas alheias no IRC.
Como cereja do bolo, mais tarde o Sefrim publicou uma página com uma matriz de dezenas de milhares de links, e espalhou o boato de que esta página “secreta” continha o trisock.dll, mas apenas para quem conhecesse a fórmula que permitia identificar qual o link correto. Mais gente perdendo horas e fazendo scripts para download de 100% dos links. E a matriz na página foi gerada por um script em awk feito em menos de 5 minutos, eu tinha ele até recentemente