Archive for February, 2007

Agente Scully

Sunday, February 25th, 2007

Após muito pensar, o ceticismo dela cedeu, e ela aceitou a idéia de que é, sim, possível ter um controle remoto que seja capaz de reger, simultaneamente, o DVD, a TV e o sintonizador da TV a cabo. O próximo passo é abandonar os transformadores de voltagem 110 para 110.

Ele pensa que é kafkiano, mas é orwelliano

Monday, February 5th, 2007

Era só uma soneca rápida de tarde quente de domingo, ainda digerindo o churrasco do almoço, mas acordei assustado. Ainda bem que foi só sonho.

Começou em um mundo preto e branco. As cores existiam, mas eram todas cinzentas noturnas, exceto uns neons. Mundo tecnológico, como se Chris Claremont e John Byrne tivessem desenhado um cenário alternativo pra um futuro no estilo Blade Runner. Irreal.

Estou em uma rua cheia de gente, todos andando de cabeça baixa. Ninguém se olha no olho, ninguém desvia do seu caminho. ORDEM. Ao longe, no alto de um prédio, um neon anuncia: Paraíso Kafkiano. Não sei onde estou, o que devo fazer, ou por que estou ali. Noto um pequeno distúrbio na aparente ordem: policiais fardados estão prendendo um senhor. Pergunto a um passante se aquele senhor havia cometido algum crime, e ele responde, laconicamente: “Claro que não” – como se fosse óbvio que ninguém mais comete crimes.

“Por que então ele está sendo preso?” A resposta me surpreende: “Ausência de pureza ideológica.” Quero saber como é isso, e vendo a minha cara de dúvida, o passante diz simplesmente: “Na noite passada ele falou durante o sono, e os censores entenderam que ele estava comparando o mundo de hoje com o período de antes da revolução.” E antes de se afastar a passos rápidos, apontou um cartaz distante em uma parede. Me aproximo para ler: “Censura em nome da Liberdade”, diz o título, e logo abaixo lista uma série de atitudes mentais banidas – algumas mais antigas, outras acrescentadas mais recentemente, como se houvesse uma nova versão do cartaz.

Prossigo andando, e percebo que tenho uma pulseira que não consigo tirar, que parece ter um microfone, um transmissor, e um display. Tendo percebido o desconforto do passante que respondeu minhas perguntas de antes, vou direto aos cartazes, e a resposta não tarda: “Vigilância para proteger sua privacidade”. A palavra “patrulha” me passa pela cabeça, e imediatamente o bracelete começa a emitir um ruído, e as pessoas ao meu redor se afastam. Olho para o display, e está escrito, em maiúsculo e vermelho: “FUD”. Prossigo caminhando, e logo o ruído pára.

Mais adiante, encontro um quiosque decorado com símbolos nacionais, aparentemente distribuindo computadores para a população. Sobre o quiosque, uma autoridade discursa para a multidão embevecida, todos na fila para receber o seu computador. Não consigo ouvir o discurso, mas sobre a autoridade há um balão de texto como o de histórias em quadrinhos. O homem não pára de falar, mas o balão está sempre vazio, e não entendo a razão. Entro na fila para receber um computador, mas quando está quase na minha vez, percebo que as pessoas estão recebendo apenas um gabinete vazio, inútil. Imediatamente o meu bracelete começa a apitar, e sou removido da fila. A autoridade começa a discursar apontando o dedo para mim, mas o balão permanece vazio. Encontro um novo cartaz: “Filosofia é tudo, resultados práticos são devaneios burgueses”.

Prossigo um pouco mais, e encontro uma grande cratera em um canteiro de obras. A cratera é enorme, engoliu casas e veículos. Parece recente. Ao seu redor, vários outdoors dizem: “Progresso é segurança”. Neste momento começo a correr. Tropeço em um cartaz que diz “Kafka nada, isso é Orwell”. E acordo em um mundo em que tentativas de justificar censura em nome da liberdade, patrulha em nome da pureza ideológica e ausência de resultados práticos compensada por uma boa imagem não cola com todo mundo. Ainda bem.