Eu acho que aquela companhia aérea tinha certeza de que ia ter um outro apagão, provocado pelos controladores de vôo, e por alguma razão resolveu vender muitas passagens a mais, porque sabia que não ia mesmo ter como as pessoas viajarem, ela não iria levar a culpa, e ia fazer bastante caixa nessa operação, porque poucos dos passageiros iam querer o dinheiro de volta – iam simplesmente remarcar, e ninguém ia botar a culpa nela.
Lá pela véspera do feriado, quando ficou claro que os controladores não iam jogar areia, eles perceberam que se deram mal, aí fizeram aquela manobra de tirar 8 aviões da escala inexplicavelmente pra manutenção. Isso é inexplicável mesmo, mas mais inexplicável ainda seria assumir que havia rolado uma decisão estratégica de vender muuuitas passagens a mais, contando com o caos causado por outros, que não houve.
É por isso que não vemos surgir uma cabeça numa bandeja de prata, demitido e levando a culpa pela monumental falha. Foi uma decisão estratégica, errada mas tomada por alguém que não pode ser acusado internamente. E talvez não seja interessante acusá-lo externamente também, por isso o relatório oficial do governo, que sria divulgado ontem, foi adiado pro ano que vem.
Qual o seu palpite? Mas não mencione nomes de empresas ou pessoas, que não quero me incomodar.
Me veio à cabeça uma teoria. Nada muito provável, mas é ao menos divertido pensar nela.
A idéia é semelhante à que você descreveu, a diferença seria a origem da idéia de vender mais. É a seguinte:
Acho que é lógico que, baseadas em análise estatística da quantidade de pessoas que costumam não aparecer para o vôo, as empresas vendam um pouco a mais, com uma margem mais ou menos segura para que as despesas com ressarcimentos de danos para quem não conseguiu embarcar sejam menores que o aumento nas receitas proveniente da utilização mais eficiente dos assentos.
Também me parece lógico que os cálculos necessários para estabelecer uma margem segura para overbooking sejam complexos, e ninguém vai querer calcular tudo isso manualmente. Então acho provável que essa análise estatística seja feita automaticamente, com base nos dados de comparecimento aos vôos de períodos anteriores.
A minha teoria é que os problemas ocorridos nos meses anteriores fizeram com que o algoritmo que calcula a margem segura para overbooking calculasse deixasse de ser um bom modelo para a realidade. Ou porque calculou uma margem de overbooking muito alta, ou porque o comportamento dos passageiros mudou depois da crise, ou ambos.
Talvez a minha teoria também precise incluir a hipótese de que houve uma decisão estratégica tomada porque alguém confiou demais nos números do algoritmo de análise estatística. Nesse caso, seria um misto entre a sua teoria, e a minha.
Eu avisei que não seria uma teoria confiável. Mas é divertido pensar que alguém usou os números sem pensar neles, e aconteceu isso tudo.
Essa história nunca vai ser esclarecida direito… Mas overbook tem que ter mesmo.