O incendiário da firma

Eu assisto The Office não só por achar muito engraçado (e acho), mas também porque a comédia corporativa serve de alerta e exemplo pra muita coisa.

Não imagino de onde os roteiristas tiram tantas situações (devem ser tipo o Scott Adams, que recebe de meio mundo sugestões pro Dilbert baseadas em fatos reais), mas muitas vezes eu terminei de ver um episódio já com a idéia pronta de alguma pauta a pesquisar pro Efetividade.net.

E os personagens? São quase arquétipos corporativos:

  • O chefe Michael é um eterno perdedor e coração mole, e nem ele entende (como os personagens do Seinfeld, que nunca aprendiam nada) como se safa das situações que ele mesmo cria.
  • O Dwight Schrute é um sem-noção completo, boçal ao extremo, sem habilidades sociais (“lots of CPU but no I/O”) que acredita ter resposta pra tudo e estar acima de todos. Falta uma barba…
  • O Stanley é um cara que existe em todo grupo: ele já se encostou nas cordas, está contando o tempo pra se aposentar ou ser mandado embora, e não faz questão de fazer nada que não seja absolutamente obrigatório – e mesmo assim contamina o ambiente com seu pessimismo e apatia explícitos.

E assim por diante, numa longa lista: o trainee ambicioso demais, o puxa-saco competitivo e caricato, a fofoqueira, a juíza do comportamento alheio, etc.

E, mais ou menos como é executado magistralmente no TBBT, tenho a impressão de que tudo ali é construído não para que nos identifiquemos com um personagem específico, mas sim com um conjunto das características de vários deles – daria de montar uma ficha de RPG e dar pontos de Jim, pontos de Pam, pontos de Creed, etc. para cada um de nós.

A melhor sequência ever

Narrei tudo isso só pra chegar a este ponto: essa semana eu estava assistindo a quinta temporada, cuja caixinha de DVDs acaba de chegar aqui em casa, e identifiquei na sequência abaixo, dos 4 minutos de abertura do episódio “Stress Relief”, a mais engraçada de toda a série.

Quem acessa pelo feed pode não estar vendo o vídeo ali acima, mas vale a pena clicar pra carregar o post inteiro e aí assistir a sequência de 4 minutos caóticos, que começa com o Dwight contando que na semana anterior ele deu uma palestra sobre procedimentos de segurança e ninguém prestou atenção – mas ele sabe a razão: ele usou Powerpoint, e Powerpoint é chato demais.

Por isso ele vai fazer a coisa mais lógica do mundo para que todos aprendam: trancar todas as portas, aquecer as maçanetas com um maçarico (pra parecer que tem fogo do lado de fora), e tocar fogo numa lixeira numa saleta, pra fazer bastante fumaça – e assim todos darão atenção a ele enquanto ele ensina como lidar com a situação.

O que poderia dar errado? Tudo! Ninguém está interessado em instruções. O chefe é o primeiro a gritar “Então é cada um por si!”, e o cara que consegue escapar pelo teto não está disposto a ajudar mais ninguém a subir. A funcionária que tem um gato só quer saber de salvar o gato, que é o que interessa pra ela.

Enquanto 2 empreendedores tentam, sem apoio de ninguém, arrombar uma porta usando uma copiadora como se fosse um aríete, outro arrebenta uma janela pra pedir socorro – e ninguém lembra de usar o celular.

Alheio a tudo, um cara se ocupa de quebrar a máquina de salgadinhos e encher os bolsos com pacotinhos.

E o Dwight, que tem certeza de que está tudo sendo muito instrutivo, a certo momento sobe em uma cadeira, toca uma sirene e avisa: tudo não passou de um exercício! Expressões incrédulas se dirigem a ele, mas só até se voltarem ao Stanley, que está tendo um ataque cardíaco.

A cena encerra com vários funcionários tendo que conter o chefe Michael que, apesar de não saber nada sobre o assunto, quer fazer respiração boca-a-boca no Stanley ao mesmo tempo em que, aos gritos, tenta acalmá-lo lembrando que ele é negro, e Barack agora é o presidente, então ele não pode morrer.

É uma enorme densidade de caos por segundo, e é tão legal que constou na retrospectiva de 2009 da Time. Recomendo!

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